segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Era muito tarde, mas a manhã não vinha, e ainda bem porque nós continuávamos a querer a escuridão: com o mapa reflectido no ecrã do telefone, mostrámos um ao outro as ruas das casa onde crescemos com os nossos pais, as ruas das escolas onde tínhamos estudado, as cidades bonitas dos nossos países em que já estivéramos e, sobretudo, aquelas que não conhecíamos. Depois eu disse que estava cansado de falar em inglês, ela também, e voltámos àquele assunto da tarde: somos absolutamente os mesmos quando falamos noutra língua que não a nossa? Nunca tinha pensado nisso, respondeu ela, mas daqui a uns meses já vou ser exactamente eu mesma para ti.

domingo, 17 de setembro de 2017

again




I FOUND YOU AT THE WINDOW AGAIN
LOOKING OUT, WATCHING THE LEAVES FALLING IN
AND IT WAS SOMETHING LIKE A DREAM
SO PERFECT, COULDN'T TALK TO ME....

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Artigo no IndieWire

 
 
Ainda no rescaldo da minha participação na Locarno Critics Academy, foi publicado um texto meu no IndieWire, no qual, a partir de alguns dos filmes que vi no festival, procuro seguir o trilho de uma certa e contemporânea desconstrução do conceito convencional de "parentalidade".
 
O texto original não corresponde integralmente ao publicado - foi alterado pelo editor, mas, enfim, é o que é. Enjoy.
 
Para ler aqui (clicar).
 
"(...) the face as a body matter associated with our identity, provides a template for understanding who we are. On the other hand, it also triggers an interpersonal questioning: who am I within this affective circle called “family”? What duties or tasks do I have or am I supposed to carry out as a “mother” or as a “father”? More: What projections and cultural and symbolic representations are associated with those roles? Last but not least: What expectations do others have about those roles within family dynamics?"
 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

lembro-te

"Hoje vi um casal a discutir. Lembrei-me de ti".

Hoje vi isto escrito numa parede e lembrei-me de ti.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

lembra-me

Depois de fazermos amor, ela disse que tinha encontrado um homem. Que talvez se apaixonasse, se é que isso já não teria acontecido. Fiquei entusiasmado com essa possibilidade e, num misto de curiosidade e cinismo, perguntei-lhe: "A sério? Conseguiste mesmo voltar a sentir aquilo?".
 
Com as palmas das mãos nas coxas, ela respondeu: "Como é aquilo? Lembra-me...".
 
As luzes e as sombras dos anos que passaram - ou dos que passarão? - concentraram-se no seu rosto naquele momento, todos os princípios e todos os fins. A descrença, o entusiasmo comedido, a ilusão que deixou de o ser, o pragmatismo triste (mas optimista?) de que precisamos como pão para a boca.

domingo, 10 de setembro de 2017

eles comem tudo e não deixam nada



(The Patsy, 1964, Jerry Lewis)

Logo nas primeiras cenas de "THE PATSY”, o “ciclo biológico” processa-se abruptamente: da morte para a morte, sem passagens pelo meio, irónica transição num filme em que tanto se fala do “nascimento”, do “fazer nascer” uma estrela. A morte de um comediante famoso, momento com que o filme se inicia, propicia a reunião de emergência da sua equipa (produtor, argumentista, secretária), corja de interesseiros que, durante o seu sucesso em vida, foi sugando e aproveitando-se da sua fama e riqueza: a casa em Malibu, as viagens à Europa, a mansão em Palm Springs... O seu “plano de sobrevivência” é simples e não menos “vampiresco”: encontrar um zé-ninguém (“nobody” é o termo que usam) e fazer dele, custe o que custar, uma nova estrela, ou seja, um novo corpo de cujo sangue se possam alimentar daí em diante. Quando Jerry, moço de recados (bellboy, novamente; working class heroe, sempre) do hotel, entra em cena no seu estilo desajeitado e inconveniente, a corja imediatamente se apercebe de que está ali o alvo por que ansiavam, a sua nova mina de ouro (não por acaso, os fatos pretos, os tiques físicos e o fumo dos cigarros aproxima-os da figura de gangsters...).

 
Autênticos vampiros, dirigem-se, silenciosos e em passo de zombie, progressivamente até ao seu encontro, rodeando-o, intimidando-o, a sede de dinheiro já a fazer-lhes correr água na boca. E como a sede é tanta, apertam-no de tal forma que Jerry acaba por cair da varanda. A morte do famoso comediante que inicia o filme dá lugar, então - leva a -, à morte daquele que ainda não o chegou a ser e, com isso, ironicamente, à própria morte da "solução financeira" da grupeta. Claro que, no filme, Jerry não morre (aliás, a queda da varanda serve para fazer passar os créditos) e “volta à tona” porque aterra em cima de um trampolim – algo (o “trampolim”) que acabará por rimar com a última cena do filme, na qual Jerry, agora “encostado à parede” (ou à varanda) pela mulher por quem está apaixonado, finge novamente cair no abismo, para voltar, uns segundos depois, a entrar em cena: “It’s just a movie, see? I’m fine. The people in the theatre know I ain’t gonna die. Here, see, it’s a movie set…”.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CICLO 5 ANOS "À PALA DE WALSH" NO PORTO



 
PORTO: Os 5 anos do site À pala de Walsh também se celebram no TEATRO DO CAMPO ALEGRE!
 
A partir de 3 Outubro e até 14 de Novembro, um filme por semana seguido de conversa com convidado moderada por mim e pelo João Araújo. Anotem já nas vossas agendas... Até já!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Anybody can miss



(The Ladies Man, 1961, Jerry Lewis)

Cena tão ternurenta quanto melancólica (e cinéfila): George Raft a tentar fazer provar a Jerry que é mesmo ele, George Raft em carne e osso, o actor, o famoso, a "movie star". Jerry não acredita e pede-lhe que repita o número da moeda que Raft celebrizou em "Scarface". Raft levanta-se, velho, pesado, rosto gasto (o tempo a cobrar ao corpo...), e o número sai desastrosamente mal... Ninguém mais a vê, a moeda perde-se no ar. Raft, desesperado, insiste que é ele em pessoa mas que, por vezes, eles - sim, até eles, os "famosos" do outro lado da galáxia, os gangsters implacáveis no ecrã, os galãs insuperáveis - também falham. "Anybody can miss... I'm not infallible", diz com todas as (amarguradas) letras.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

justa distância

 
 
(Les Parapluies de Cherbourg, 1964, JD)
 
 
Se o travelling é uma questão moral, o local onde colocar – neste caso, “deixar” é ainda mais apropriado - a câmara também o pode ser (ou uma questão... "sentimental"?): na despedida, a câmara não vai nem com o comboio, nem fica com Deneuve (em movimento oposto ao do comboio). A meio, Demy deixa a câmara ficar exactamente a meio, sem tomar partidos, decisões, tão-pouco sugerindo eventuais desenvolvimentos para aquele dilacerado casal. No meio - o local justo, a justa distância, para filmar um e outro, sem necessidade alguma de fabricar "drama", porque Demy sabe que ele já existe (o quanto ele já existe…), sem aditivos gratuitos, naquela separação. Também por esta razão, e ao contrário do modo convencional como tantas vezes se filma, Deneuve não fica lá ao fundo imóvel, chorosa, a olhar o comboio partindo inexoravelmente. Não, o comboio vai e Deneuve vai também. Apesar de tudo, a vida segue - tem de seguir, é isso que nos (lhe) dizem... Na estação de comboios como, depois, na estação de gasolina, a vida segue.