segunda-feira, 8 de maio de 2017

secando






Sob Águas Claras e Inocentes, 2016, Emiliano Cunha

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Artigos - Kendrick Lamar



Para quem não sofre de excitação-esquecimento, sirvo Kendrick Lamar em dose dupla no Rimas e Batidas, primeiro interrogando-me sobre a unanimidade (acrítica? informada?) que se gerou em seu redor, depois na crítica ao seu novo álbum.


Primeira parte: http://www.rimasebatidas.pt/kendrick-lamar-com-um-grande-talento-vem-uma-grande-exigencia/

Segunda parte (crítica): http://www.rimasebatidas.pt/kendrick-lamar-damn/

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Crítica de cinema




No Artes Entre As Letras desta semana, escrevo sobre o São Jorge, Aquarius e o Life. Bons filmes!

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São Jorge (2016), Marco Martins ★★★
O filme que deu a Nuno Lopes o prémio de melhor actor em Veneza confirma Marco Martins, depois de Como Desenhar um Círculo Perfeito e Alice, como um dos mais relevantes cineastas portugueses da actualidade. É nas costas de um Nuno Lopes “encostado às cordas”, sempre em passo rápido, que vamos percorrendo as margens de Lisboa, do bairro da Bela Vista ao submundo das empresas de cobranças difíceis, sempre no escuro, sempre de noite – é caso para dizer que “a morte sai à rua”. Ao contrário do que por vezes se vê no cinema nacional, em que a “portugalidade”, a pretexto de um tratamento que se pretende o mais “sociológica” e genuinamente possível, acaba retratada de forma boçal e forçada (caso, por exemplo, de Sangue do Meu Sangue), Martins filma o país e os portugueses de um período terrível (a crise e a presença da Troika) com uma justeza singular, sabendo explorar as histórias e os dramas de uns e outros (a pobreza, a imigração, a luta sindical) com o mesmo respeito e sensibilidade, sem jamais cair, porém, na velha tentação de endeusar as personagens num simplismo ingénuo (José Raposo, em magnífico desempenho, é o mesmo homem que admiramos na luta sindical e repudiamos no que de racista e xenófobo manifesta). Martins demonstra uma grande solidez na câmara (sente-se à distância que sabe e domina perfeitamente os planos e os enquadramentos que imaginou), assim como no trabalho de iluminação, determinante num percurso que se faz sempre – literal e metaforicamente – na sombra, espécie de “descida aos infernos” de um homem bom cuja imagem exterior volumosa não bate certo com a sua natureza profundamente frágil, “lutador” que, para fazer dinheiro, tanto “leva” (no ringue) como “dá” (nos devedores). Nesta “queda de um anjo”, simultaneamente  realista e melodramática, há a apontar de menos bom a previsibilidade do argumento (sequência do tipo contenção-explosão-redenção), patente no modo como o filme termina, final aberto (e “fuga para a frente” quer para a personagem, quer para o próprio filme) que já se pressentia desde, pelo menos, o segundo terço do filme.

Aquarius (2016), Kleber Mendonça Filho ★★
O último filme de Kleber Mendonça é o típico exemplo de uma proposta cheia de boas intenções mas cujo resultado final se revela coxo, quase caricatural. Se o argumento, em si, se mostra pleno de sentido e oportunidade, a forma como Mendonça procura filmar aquela sensação de "aprisionamento" progressivo e silencioso (e carpenteriano, não fosse o americano uma das grandes influências de Mendonça) em torno de Clara (Sónia Braga) nunca convence, desde logo pelo modo como o brasileiro, visivelmente fascinado com a sua actriz (caso clássico de uma "diva" que o é por si só, não carecendo de uma câmara aduladora), a contempla a todo o tempo, fazendo-se notar mais a presença da câmara do que a da actriz, ambas saindo a perder. Mas o problema está também na desarmonia da câmara de Mendonça (muitos e diferentes modos de filmar, de planos gerais abertíssimos a grandes planos irrelevantes, "zoom in" abruptos que lembrando, por exemplo, De Palma, acabam por ser mais evocadores do que outra coisa, inclusivamente ângulos diversos, como aqueles oblíquos que captam Clara a mirar o prédio) e na incapacidade da montagem em dar a fluidez necessária; na fragilidade da mise en scène, visível em cenas que simplesmente não funcionam (as conversas de Clara com o jovem imobiliário, o flirt frustrado com o homem da festa, a tarde com o jovem casal na praia) e, até, do trabalho de representação (se se pretendia algum “naturalismo”, os resultados traíram claramente as intenções); ou, ainda, na música brasileira martelada, tentativa de injectar, sem qualquer subtileza, intensidade e simbolismo à força. Mas até o próprio o argumento se revela, no seu desfecho, assaz frouxo, algo a que nem Sónia Braga, actriz de riquíssimos recursos, consegue dar a volta: não só a ameaça de um escândalo nas notícias (num tempo em que os "escândalos" duram, em virtude da diarreia noticiosa das redes sociais, pouco mais do que 24 horas, se durarem) como aquela ida de Clara à imobiliária onde apresenta a (pobre) prova da malvadez acabam, afinal, na sua inocuidade, por fazer do filme um objecto inofensivo e pouco ou nada subversivo (contra aquilo que, supõe-se, era intenção do cineasta).

Life (2017), Daniel Espinosa ★★
Coisa já vista (Alien, The Thing), é certo, mas nem por isso de deitar fora, o filme de Espinosa reflecte algo que de há uns anos para cá se vem sentindo no cinema americano, a saber, a tendência para ser nos géneros de terror e de ficção científica que hoje encontramos, na sua sobriedade, solidez e economia (da narrativa, não de recursos), algo (um estilo, uma postura) próximo de uma certa ideia de cinema “clássico” (americano). Se as referências cinéfilas são as inicialmente mencionadas (e o filme saia, na comparação, a perder), não deixa de agradar à vista a mão de Espinosa na câmara (aquele longo plano sequência inicial é todo um exercício cinematográfico “exótico” de ver actualmente em filmes deste orçamento e mediatismo), o trabalho competentíssimo dos actores (Jake Gyllenhaal, como quase sempre, excelente, e Rebecca Ferguson a reclamar decididamente voos mais altos) e, enfim, a seriedade do argumento, que, embora faça a questão metafísica ceder ao action movie, não autoriza nunca a presença daqueles momentos pateticamente melodramáticos habituais (os de Gravity ou Interstellar), simultaneamente sabendo sempre manter o suspense no espectador, de que o final, a anunciar uma sequela, é o culminar.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Crítica - "All-Amerikkan Bada$$"



A minha crítica All-Amerikkan Bada$$, o novo álbum de Joey Badass, no ípsilon da sexta-feira passada.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

sim, até poemas




(Una vita difficile, 1961, Dino Risi)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Texto - Da Weasel

 
 
O meu contributo para a semana em que se celebraram, no Rimas e Batidas, os 10 anos do último álbum dos Da Weasel sai com alguma comoção à mistura – não podia ser de outra maneira.
O Pedro Coelho está nos créditos, o primeiro e único irmão que tive até 97.
 
Para ler aqui (clicar).
 
"Talvez não tenha melhor exemplo (a par do futebol) na minha vida dessa ideia de que o hip-hop, a música, enfim, a Cultura, aproxima as pessoas nas suas diferenças, de que as tornas amigas e benfazejas, do que esses 10 dias na Tocha; numa generosa parte, foram os Da Weasel que me “integraram” naquele território desconhecido, e, só por isso, a minha história e a deles já se misturam a um nível muito íntimo, esse capaz de nos fazer estremecer em qualquer momento das nossas vidas".
 
[Excerto]

segunda-feira, 10 de abril de 2017

a memória que nos ultrapassa


(Il Sorpasso, 1962, Dino Risi)

"Temos todos a memória distorcida da infância. Sabes porque é que dizemos sempre que a infância é a idade mais bela? Porque, na verdade, não nos lembramos de nada".

Andava à procura, há não sei quanto anos, desta ideia. Finalmente encontrei alguém que a verbalizasse - e não sei se isso é propriamente bom, mas agora também não interessa.

Podcast Regresso ao Futuro 29 Março

 
 
 
Veio tarde mas a boas horas: no podcast do REGRESSO AO FUTURO da Antena 3, começámos a dançar ao som do funk dos Roulote Rockers (“Projecto de Sábado à Tarde”, 2009), voámos para o universo paralelo (percursor de toda a Monster Jinx) dos Monstro Robot (“Monstro Robot”, 2009) e acabámos num “film noir” ambientado na Margem Sul realizado pelos Merchandising (“Merchandising”, 2014).
 
Tudo "one single projects" que reflectem a diversidade de estilos, gerações e geografias do hip-hop português e que, estando hoje desaparecidos, redobram o interesse em que os redescubramos.
 
 
 
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

TEASER #2: O NOSSO SANGUE / OUR BLOOD


 
 
NÃO CONSEGUES CRIAR O MUNDO DUAS VEZES
 
um filme de Catarina David e Francisco Noronha
 
Uma produção A Bunch of Kids

sexta-feira, 31 de março de 2017

mares do sul




(Tabu, 1931, F. W. Murnau)

quarta-feira, 29 de março de 2017

Crítica de cinema



No Artes Entre As Letras que saiu hoje para as bancas, escrevo sobre o Personal Shopper, do Assayas, e o belíssimo Alice nas Cidades, do Wenders, um filme para levar para casa e não esquecer nunca mais.


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Personal Shopper (2016), Olivier Assayas ★★★
Se, à primeira vista, o sobrenatural parece algo de inusitado na filmografia de Assayas, a verdade é que o seu último filme não está exclusivamente – ou nem tanto, até – interessado em explorar esse território específico. Na verdade, ele funciona, sobretudo, como ponte para o francês abordar os assuntos bem mais terrenos ou mundanos a que o estamos habituados a associar. Partindo – e girando sempre em volta – da personagem de Kristen Stewart (actriz que o cineasta "repete" depois do seu excelente desempenho em As Nuvens de Sils Maria, e uma das melhores coisas que aconteceu ao cinema americano nos últimos anos, desde que, bem entendido, a mesma foi resgatada do produto juvenil Twilight), uma rapariga que, depois falecimento do irmão gémeo médium, aguarda que este o contacte do outro mundo, o francês enceta uma reflexão sobre como esse espiritual "mundo dos mortos" pode ter o seu reflexo no virtual mundo contemporâneo "em rede", esse em que, de tão aturado de informação e de previsibilidade (todos sabemos o que todos fazem, comem, vêem), umas simples reticências num chat de telemóvel podem constituir o zénite do mistério, do suspense e, até, do terror (isso e todas as demais manifestações tecnológicas: as claustrofóbicas janelas de chat, o “modo avião” como temporária forma de nos conseguirmos “desligar” e a subsequente e sôfrega necessidade de “actualização”, etc.). E é através desse mistério que a virtualidade encerra que Assayas aproxima as relações “em rede” de relações “mediúnicas” – apesar das fotografias, do “likes” e das mais diversas manifestações, quem é, de facto, a pessoa com quem falamos num chat? Até que ponto a comunicação virtual, na forma como distorce a percepção mútua, não faz dos interlocutores corpos habitados por… “espíritos”? São esses os dois planos de observação que Assayas inteligentemente relaciona: um físico, mundano, aludindo à ansiedade, à angústia, inclusivamente ao cansaço físico que o “estar ligado” provoca em nós (o modo como Stewart está permanentemente agarrada ao telemóvel, se também possui uma dimensão humorística, chega mesmo a fatigar e, até, a nausear o espectador); e um “metafísico” ou espiritual, no qual o encontro virtual vira “encontro imediato de 3º grau”. Se, felizmente, já não é vampira, Assayas conserva de Stewart, porém, a palidez, as olheiras, o ar “hibernal” e trashy, ao mesmo tempo que lhe reserva uma certa androgenia (com a qual joga ironicamente na cena do vestido). A grande nódoa é aquele monólogo final de Stewart (que se interroga sobre se tudo o que vê/ouve/pressente é “só na cabeça dela”), semi-twist pouco sério (a sugerir, afinal, um mero delírio psíquico) que imprime uma ambiguidade forçada ao filme.

Alice nas Cidades (1974), Wim Wenders ★★★★
Numa excelente cópia restaurada, aquele que será o que Wenders considerou verdadeiramente como o seu “primeiro” filme, e tomo inicial da sua trilogia “road movie” (juntamente com Movimento em Falso e Ao Correr do Tempo), vê-se hoje com o mesmo entusiasmo de à data do seu lançamento, forma de sublinhar como em nada se mostra datado ou ultrapassado. Não é só aquela coisa de “envelhecer bem” – mais do que isso, é um filme intacto na sua juventude, na sua frescura, ao que ajuda, claro, a sua própria natureza de road movie, de filme derivativo, “em andamento”, eternamente em busca de algo (porque é a procura aquilo que interessa, claro, e não a chegada), sendo, neste sentido, um filme “interminável”, como se o Philip do filme ainda hoje andasse por aí, entre estradas e polaroids, talvez até ainda na companhia da pequena Alice (não saberemos nunca se eles chegarão, de facto, a encontrar-se com a mãe…). É, por isso, um filme “sem destino” e que, não por acaso, termina num combóio em andamento, como se o espectador tivesse sido apenas uma estação onde ele parou momentaneamente antes de voltar à marcha. Iniciando Philip – e o próprio Wenders, ele mesmo um fascinado pelos EUA em toda a sua complexidade – a sua jornada na América, viaja depois para a Holanda e daí para a Alemanha, em todos esses lugares se sentindo um “estranho”, alguém “de fora” (inclusivamente no seu próprio país, a Alemanha), um estrangeiro “existencial” à moda de Camus (bem diferente dessa coisa, hoje papagueada por tudo o que é publicidade turística “low-cost”, do “cidadão do mundo”). Avulta, claro está, a habitual costela cinéfila de Wenders, sobretudo através da reflexão sobre as imagens (as fotografias de Philip) e o olhar que sobre elas projectamos – se do Estado das Coisas guardamos, entre outras, a inesquecível afirmação de que o preto-e-branco é sempre mais verdadeiro do que uma imagem a cores, daqui saímos a pensar se, de facto, como se ouve a certa altura, uma fotografia nunca mostra o que realmente vimos inicialmente. Ou essa maravilhosa e abismal sentença, dita por uma personagem a Philip, de que a sua obsessão em fotografar se funda na sua necessidade em se certificar de que viveu aquele instante, de que viu o que fotografou, enfim, de saber que (ainda) existe – a imagem (o cinema, et pour cause…) como derradeira resistência ao esquecimento e à efemeridade, como elemento que nos fixa, a nós e ao nosso redor, para a eternidade, essa que tão bem joga com o carácter “interminável” do road movie. Pelo meio, há ainda essa inesquecível miúda (Yella Rottländer), a qual Wenders, aproveitando-se da sua extrema expressividade (através da qual lhe consegue sacar trejeitos perfeitamente adultos), vai captando de um ângulo progressivamente mais ambíguo, sexualizado, espécie de proto-Lolita (altiva, mimada) que, na praia, pergunta a uma estranha se acha que Philip tem aparência de ser seu pai. É, pois, um desses filmes altamente recomendáveis, pois que fica connosco muito para lá do seu visionamento, à semelhança do modo insistente como as imagens da paisagem americana se passeiam na cabeça de Philip quando, confrontado pelo seu editor com o facto de só ter fotografias e não palavras (texto), lhe responde com uma pergunta: “Não posso escrever com imagens?”. Bom, isso, como diria um certo sujeito chamado Robert Bresson, chama-se cinema.


São Jorge (M. Martins)
★★★
Personal Shopper (O. Assayas)
★★★
Alice nas Cidades (W. Wenders)
★★★★
Moonlight (D. Chazelle)
★★★
Jackie (P. Larraín)
★★★
Paris, Texas (W. Wenders)
★★★★
A Autópsia de Jane Doe (A. Øvredal)
★★★
Aquarius (K. M. Filho)
★★


Crítica - "More Life"




Depois da minha crítica a Views (2016, ler aqui), continuo a acompanhar o singular trajecto de Drake, agora olhando para o seu recém-editado trabalho More Life.

Para ler mesmo ali ao lado no Rimas e Batidas (clicar).


Eppur si muove – apesar da inegável existência de uma “fórmula Drake”, apesar de tudo parecer relativamente idêntico, há neste álbum (…) um movimento qualquer de deslocação, uma tendência para aqui ou para ali que impede a estagnação, que abre sempre, mesmo que timidamente, a porta a algo mais (a um género, a uma geografia, ou, simplesmente, a uma qualquer atmos...fera nova…). (…) A obra de Drake, neste momento, funciona um pouco como o planeta Terra: embora pareça parada, está, na verdade, num lento, profundo (…) e permanente movimento, embora possuindo sempre, também como a Terra, uma centralidade referencial (o hip hop, o R&B). Se essa trajectória se concretizará numa translação e, consequentemente, num retorno ao ponto de partida (o que seria o definitivo atestado do esgotamento criativo de Drizzy) ou se prosseguirá livre e indefinidamente no cosmos, eis o que fica (novamente) por saber”.

segunda-feira, 27 de março de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

prenúncio (2)




(Road to Nowhere, 2010, Monte Hellman)

sexta-feira, no ípsilon




Texto meu e fotografias de Rui Gaudêncio.

segunda-feira, 20 de março de 2017

prenúncio

Ainda antes de a conhecer, sonhei que ela morria. Mas era ela, de facto: tinha as formas dela, os olhos azuis enormes. Mas morria.

sexta-feira, 17 de março de 2017




(Alice nas Cidades, 1974, Wim Wenders)