quarta-feira, 25 de maio de 2016

Artes Entre As Letras #11 - Crítica de cinema


Numa altura em que o Artes Entre As Letras se prepara para celebrar o seu sétimo aniversário em torno do cinema (dia 18 de junho no Teatro Campo Alegre), escrevo, no último número, sobre A Lei do Mercado (2015, Stéphane Brizé) e a (polémica) Palma de Ouro de Cannes 2015, Dheepan (2015, Jacques Audiard). Boas leituras.
 
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A Lei do Mercado (2015), Stéphane Brizé ★★
Talvez a nossa desilusão com o último filme de Brizé – dele e “de” Vincent Lindon, a tal ponto a sua gigantesca interpretação quase obriga a tomá-lo como “co-realizador” do filme – se prenda com as elevadíssimas expectativas com que o aguardávamos desde Cannes 2015 (onde coleccionou rasgados elogios) e com a admiração que temos pelo trabalho de Lindon. Como quer que seja, o certo é que o filme – tão caro a um “realismo social” historicamente colado ao cinema francês e hoje representado por gente com os irmãos (belgas) Dardenne –, partindo de um interessante e actualíssimo argumento sobre o drama social e familiar do desemprego, acaba, na sua deliberada sisudez, por se tornar num objecto árido e algo maçudo. Ironicamente, não deixa de ser também um drama sobre o próprio facto de se estar… empregado, através de um olhar sobre a indecência moral que a lógica puramente economicista que está contemporaneamente subjacente ao trabalho impõe às relações humanas, de que é exemplo a incumbência atribuída a Thierry (Lindon), segurança num supermercado, de espiar os próprios colegas de modo a “acelerar” o seu despedimento (é o auge da perversidade do Big Brother contemporâneo: já não o sistema a vigiar, mas a ordenar aos próprios vigiados que vigiem os seus pares, numa lógica de “todos contra todos”, de dividir para reinar). Se aqui o filme marca pontos, no plano formal, a aridez de que falámos é em grande parte culpa do trabalho de montagem, responsável por cenas que, filmadas em registo quase documental, não resistem à sua exagerada duração e não se equilibram na própria harmonia global do filme (apenas um exemplo: qual o lugar e o sentido da longuíssima cena de Lindon a dançar com a mulher na aula de dança?). Depois, há opções estéticas que agudizam o problema, sobretudo uma câmara incapaz de se manter quieta, mobilidade assaz irritante e cansativa (a lembrar, nos piores momentos, a catrefada de séries televisivas que por aí pululam e nas quais tal mobilidade é, por si só, assumida como um sinal de “estilo”), e a obsessão de Brizé com os grandes (close) e muito grandes (big close) planos sobre os corpos e, sobretudo, os rostos dos actores, planos que, se têm a virtude de evidenciar o talento dramático de Lindon (mas nem todos os actores sabem, como Lindon, ter o rosto em grande plano durante tanto tempo…), sufocam e atrofiam o filme. Não obstante as suas deficiências, é um filme que importa aplaudir pelo lúcido e crítico olhar que lança sobre os nossos tempos, sem nunca ceder, simultaneamente, a maniqueísmos primários.
 
Dheepan (2015), Jacques Audiard ★★★
Controversa Palma de Ouro em Cannes 2015, o último trabalho de Audiard revela-se um filme muitíssimo actual, nem por isso resvalando, contudo, para o esquematismo ou a estereotipação. Um homem (ex-guerrilheiro dos Tigres Tamil), uma mulher e uma criança, em fuga da guerra civil no Sri Lanka, simulam ser uma família (assumindo as identidades de pessoas mortas na guerra) para alcançar uma “terra prometida” chamada França, mais concretamente um bairro social parisiense, palco, afinal, de outras guerras – o caos habitacional, o tráfico de droga e as batalhas de gangs (já objecto da atenção do realizador em Um Profeta), a integração social, etc., embora Audiard, ao contrário do que temos lido por aí, não registe esta realidade sob a esquemática e superficial lente do “politicamente correcto”. A questão da “guerra” e da violência (nas suas múltiplas declinações) é o cerne de todo o filme e a linha branca divisória que, qual trincheira, Dheepan traça em frente à sua casa é a manifestação sintomática da sua traumática aversão a um impulso – a violência, primária em todos nós – que teima em persegui-lo, acabando mesmo por explodir na cena final, tour de force dir-se-ia inevitável para tanta tensão acumulada. O melodrama, esse, é, uma vez mais, impecavelmente trabalhado por Audiard (na senda de Ferrugem e Osso), particularmente na composição daquela “família” (do mesmo modo que, a certa altura, Yalini questiona Dheepan sobre a sua relação, também o espectador chega a acreditar naquela “história”) e da enevoada atracção entre “pai” e “mãe”. Existem, é certo, cenas e personagens menos conseguidas (como a cena do antigo companheiro de armas que tenta resgatar Dheepan novamente para a guerrilha, a qual, caída do céu, não recebe qualquer seguimento); por outro lado, o uso excessivo da banda-sonora, frequentemente a sublinhar determinada emoção ou “ambiente” experienciado pelas personagens (e, por ricochete, a “impor” essas mesmas emoções ao espectador), também constitui um ponto a desfavor. Todavia, bastam dois ou três grandes momentos musicais (os coros com que o filme encerra, por exemplo) para Audiard evidenciar a sua apurada sensibilidade e quase nos fazer esquecer os excessos referidos.

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